Pode-se ler nos melhores livros de história das artes que o genial Leonardo Da Vinci era muito mal falado na sua época, as pessoas diziam dele que era agressivo, arrogante, muitas vezes intratável por conta de seu temperamento forte, mas seus amigos retrucavam que eram os invejosos que espalhavam boatos e que o viam assim. O mesmo se dizia sobre outro gênio da humanidade, Michelangelo, fama de brigão, temperamental, instável no seu humor de quem até os cardeais tinham certo receio. Mas consta que eram também os invejosos que, desagradados por sua genialidade, cuidavam de espalhar coisas miúdas a seu respeito para diminuí-lo e assim aplacar um pouco a inveja que sentiam. Pergunto a você, leitor? Onde estão os que falavam mal de Leonardo Da Vinci e Michelangelo? Quem foram esses que se especializaram em semear ressentimentos contra eles? Ficaram na história da humanidade ou apenas as meras noticias de suas invejas sobrevivem como curiosidades nos livros de história da arte? Mesmo que tudo isso fosse verdade o que nos ficou foram as maravilhas produzidas pelas mentes e mãos desses gênios que até tinham o direito de ser como seus invejosos inimigos diziam que eram. Afinal, eles deixaram para o desfrute eterno da humanidade o produto do que tinham de melhor, não seus temperamentos instáveis e suas irrascibilidades. Algo estranho faz com que os homens divulguem o pior dos outros, por que será? A natureza humana parece que não muda nunca, é absolutamente previsível e infelizmente nem tudo no bicho homem são sentimentos de grandeza, convivemos com os pequenos homens e os conteúdos mesquinhos que vão armazenando nos corações vida afora, seus ressentimentos. De todos eles o pior é a inveja, um dos sete pecados capitais para os católicos e o mais maléfico para quem o carrega na cabeça e no coração, ensina a psicologia. Surgiu no mundo através de Caim, enfurecido de inveja de seu irmão Abel. Foi o primeiro invejoso, mas há outros famosos como o músico e maestro Salieri que se roeu e definhou a cada nova partitura de seu desafeto genial chamado Mozart que ele considerava um cretino. Como é que um menino levado e produtivo podia, com as mesmas sete notas musicais, criar obras celestiais enquanto ele, Salieri, vivido e experimentado, produzia apenas convencionalismos musicais medíocres? Invejosos sempre existiram e eles cuidam bem da agressão a seus alvos com palavras que foram se modificando no decorrer da história como: boêmio, cachaceiro, drogado, esquizofrênico, maconheiro, preto, bicha, etc... – precisam desqualificar seu objeto de inveja para sentirem-se alguém. Um famoso escritor brasileiro quando leu pela primeira vez os originais do genial Grande Sertão, Veredas, do Guimarães Rosa disse que era uma porcaria que nem merecia ser publicada. Anos depois do sucesso do livro ele ainda não tinha digerido a inveja que sentiu de Rosa. Não cito seu nome de propósito pra não lhe dar a chance de ser relembrado. Era um ressentido. Os tratados de psicologia sabem que o invejoso deseja mesmo é ser seu objeto de inveja, mas como isso é impossível ele quer que o outro não produza nada que possa ser comparado consigo para não ampliar ainda mais o fosso que os separa. Invejoso não vive, gravita em torno de si mesmo e seus minúsculos sentimentos, mas, principalmente gravita em torno de quem inveja. Amam o que invejam. Há uma lógica doentinha, invertida e aleijada usada por invejosos: “Se eu não consigo ninguém mais pode conseguir”. Não atinam que o ressentimento faz mal ao próprio ressentido. Mesmo que os curandeiros digam que ressentidos e invejosos não se curam nem com água benta, nem com pó de hóstia, acho que vale a pena tentar amenizar ressentimentos e inveja tomando chá de jurubeba pra equilibrar o fígado e aceitar conformadamente que serão sempre coadjuvantes, nunca protagonistas e tomar consciência de suas utilidades no mundo. Afinal de contas, Michelangelo e Da Vinci devem ter se sentido muito incentivados pela inveja e ressentimentos de seus detratores porque continuaram criando obras transcendentais enquanto os outros nadavam em bílis.                   O povo da área cultural conhece bem o tema. Sem inveja a vida fica mais alegre. _________________________________________________________________  

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Acabo de renovar todos os posts do meu blog. E todos eles são coisas que aprecio com o coração e alma: vídeos, fotos, textos, músicas, pinturas, pessoas, comidas...no coração cabem tantas coisas!

Peço aos amigos que COMPARTILHEM o blog com sua lista de amigos pra que, juntos, possamos contrabalançar as mazelas do Brasil com a ARTE.

Que uma legião de pessoas possa ter acesso a ele.

O contato com a arte faz o coração ardente como o da foto.

 

                                                                       SEXO EXPLÍCITO.

 

A burrice do mundo chega a ser asfixiante para quem pensa, para os que necessitam de outro tipo de oxigênio além do que está contido na atmosfera, para os humanistas que ainda acreditam que o homem é um ser superior capaz de honrar a inteligência.  Tudo confirma a assertiva de Antonin Artaud, o louco, morto num hospício qualquer da França nas primeiras décadas do século XX: “A literatura está esvaziada. Não existe mais nada nem ninguém, a alma é insana, não existe mais amor, nem ódio. Não existe mais nem mesmo aquela inquietação que penetra no vazio dos ossos, só existe uma enorme satisfação de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime e com a qual copulam sem parar, noite e dia...”. Impossível não concordar com ele no desespero contra uma vida conduzida por “um bando de criaturas insípidas que querem nos impor seu ódio à grandeza humana, seu amor pela estupidez burguesa.” E a gente aceita. Vivemos num mundo que apenas sobrevive a cada dia que passa. Perdemos os critérios e parâmetros críticos para avaliar qualquer coisa, já que tudo parece abaixo da crítica e qualquer um e qualquer coisa pode ser alvo do ódio e da inveja dependendo do estado de espírito e do inconsciente do invejoso acusador.  Na literatura e no jornalismo o que escrever que tenha importância, possa ser compreendido e eleve o espírito dos leitores? Escritores e jornalistas também estão subjugados à mediocridade geral do mundo, fica difícil produzir literatura superior quando as regras da pasmaceira atingem a todos. Na música a quantidade de bobagens produzidas com sete notas supera o pouco que vale ouvir e ocupa os espaços nos veículos de comunicação de massa, basta ligar o rádio, a TV ou percorrer as gôndolas de uma discoteca.     O melhor nesta área no Brasil ainda é o que se fez nos anos 70/80, nossos ídolos ainda são os mesmos, parafraseando um compositor popular. Mas pode-se sempre recorrer aos clássicos conforme o gosto pessoal.             No teatro espalhou-se a peste das comédias ligeiras como única possibilidade de atrair o público; o teatro não é mais um lugar aonde se vai para se ver refletido no palco, com todos os conteúdos da alma humana expostos através dos temas que os grandes gênios da dramaturgia ousaram tocar. Agora só vale rir de si mesmo e da sua própria incapacidade para encarar a vida, os relacionamentos, as idiossincrasias.  Nem há mais idiossincrasias, tudo foi igualado, há um só critério para observar o mundo, quem escapa dele é taxado de inadequado, excêntrico ou inconveniente. E ainda existem os tipinhos pigmeus culturais que adoram uma discussão sobre picuinhas particulares, fofocas de repartição pública e que sabem como ninguém baixar o nível de qualquer coisa que não esteja de acordo com suas ideiazinhas medíocres. Por conta deles é que o mundo não caminha mesmo. O melhor é ignorá-los, deixá-los fuçar sozinhos nos porões que conhecem bem.                                     Há anos, décadas, não há mais clima para a criação de grandes movimentos culturais ou alguma revolução que nos conduza a novas idéias sobre os velhos temas – qualquer coisa nova, frágil e incipiente é imediatamente absorvida pela cultura de massa e vendida nas butiques como modismo, não dura mais que uma estação. E a gente aceita.

No entanto, mais que nunca é preciso alimentar e manter o bom humor acima disso tudo e garimpar o que de bom as coisas da cultura ainda oferecem; criar como se sua criação fosse evoluir o mundo um pouco mais; trabalhar para agregar homens e ideais num único diapasão; repensar e refazer caminhos conhecidos e acomodados. Se você é daqueles que ainda sentem prazer em ler um bom livro, ouvir música de qualidade, conversar sobre temas que enriquecem e respeitam sua inteligência, assistir um espetáculo que arrepia os pelos do braço, ver um filme que se aprofunda na alma humana e correlatos e afins, então vai ter de recorrer a coisas que, aceleradamente, vão sendo consideradas dinossáuricas. E, o que é pior, vai ter de se comportar como aquele personagem grego que saía com uma lanterna na mão procurando um único homem honesto. A diferença é que não vai ter o trabalho de procurar homens honestos, cada vez mais raros. Vai precisar encontrar verdadeiros fósseis-vivos, aquelas pessoas que ainda têm prazer nesse borogodó fora de moda que é pensar e correr o risco de serem chamadas de passadistas, caretas, antigas, utópicas, sonhadoras, etc... Se é esse o seu caso agüente firme e vá em frente, vale a pena. Em tempo: o título é uma armadilha pra atrair certo tipo de leitor e levá-lo a ler e, se for o caso, refletir sobre as idéias do artigo. Sexo é uma palavra mágica, atrai sempre. Mais ainda quando é explícito. Sinal dos tempos.

 

 

    Marcos Fayad é ator e diretor de Teatro

                   

 

 

 

 

 

 

 


De vez em quando leio nos jornais locais ou nacionais alguém se indignando porque algum artista dá sua opinião sobre acontecimentos políticos, acham que artista tem de fazer arte e não se meter com política. Outras vezes leio e vejo os próprios artistas se negando a dar alguma opinião política pra não se comprometerem e o argumento é sempre o mesmo: sou artista e artista não deve se meter em política. Equívocos.

Li uma vez uma declaração de um pintor espanhol que, felizmente, não me lembro o nome, afirmando que não se manifestou sobre a guerra civil espanhola porque “era artista e não devia se meter em política”. Na época a Espanha estava sendo esmagada por uma grande sombra que se estendia pela Europa inteira. O leitor há de concordar que um artista devia fazer mais do que simplesmente se dedicar a telas e pincéis, principalmente num momento crucial em que até os pincéis podem ser usados pra uma tomada de posição – tantos artistas fazem e fizeram isso.

Sem nenhum prejuízo à arte em si.

Afirmar que essas coisas da política são apenas “política”, com a qual a arte nada tem que ver, é afirmar que a arte não se preocupa com a humanidade. O assassino se aproximava de arma em punho contra o povo espanhol e uma das vítimas declarava: “Eu sou artista, não tenho comentários a fazer”.

Se o leitor quiser pensar no oposto disso é só se lembrar da Guernica de Picasso, capaz de denunciar as barbaridades cometidas pelos fascistas e perturbar o sono do ditador que as ordenava. Até hoje é um símbolo da arte politizada e, como quadro vai permanecer eterno impedindo que se esqueça o horror da guerra e, contudo, é também uma bela obra de arte, mesmo que seu tema seja tão feio. Porque artista é aquele que transforma a realidade e arte é tomar uma realidade e convertê-la em uma realidade diferente, mudando as relações desta mesma realidade – coisa que o quadro de Picasso realiza perfeitamente. Não acredito que arte seja sinônimo de beleza como se considerava tradicionalmente porque a beleza é uma relação harmônica e pode haver beleza sem arte e também arte sem beleza.

Essa idéia de que arte e política são incompatíveis tem lá sua utilidade social. Serve para silenciar exatamente quem tem talento para se expressar através de qualquer arte, a palavra incluída aí. Acho que ninguém duvida que as idéias, quando transmitidas pela experiência artística tem um efeito poderoso sobre o espírito e podem até ser transformadas em ação.

Isso, aliás, é o que deveriam fazer os artistas de prestígio no Brasil diante dos descalabros políticos a que estamos sendo submetidos por tantos anos. Uma ou outra voz se faz ouvir entre os artistas e cientistas brasileiros e elas, por serem tão ralas e eventuais, acabam se perdendo no emaranhado de muitas contra-ações. Se fossem harmonizadas e orquestradas para emitirem sua opinião diariamente, com o espaço na mídia que têm, seriam de grande valia contra os abusos políticos cotidianos e em escalada crescente.

O poeta russo Maiakovski dizia que a arte não é um espelho do mundo, mas uma ferramenta para consertá-lo. E usou muito bem a sua contra a opressão da época que em nada difere da de hoje.

A idéia equivocada dessa separação entre arte e política nos provoca a indagar até que ponto um artista pode se isolar a si mesmo e a sua obra da vida que o rodeia? Até que ponto sua arte significará algo importante para o País se a vida cotidiana não está embutida nela? Sou daqueles que detestam arte alienada, espetáculos ou filmes construídos apenas para “distrair criaturas já de si tão mal atentas” e que após serem vistos não proporcionam ao espectador nenhuma reflexão. Existe sim uma arte burra , desconectada da realidade, criada apenas para deleite do próprio artista ou de muitos alienados como ele – não é porque agrada  a muitos que significa, necessariamente, alguma coisa. Os maiores best-sellers da literatura são obras para massas, mas frequentemente vazias e de fácil digestão.

Seu sucesso talvez venha exatamente daí: são obras que não perturbam a ordem vigente, que não se aventuram em opiniões diferentes daquelas que a massa quer ouvir, não se atrevem a revelar nada do que já não seja  conhecido. Arte acomodada é o que mais se produz no mundo, mas não é esse o maior e melhor papel de um artista criador.

Escrevendo artigos ou encenando espetáculos, lecionando ou compondo música; pesquisando em laboratórios ou emitindo sua opinião sobre a situação política do seu País um homem  r com o mundo que o rodeia e é sempre o mesmo homem. O que conta é a capacidade intelectual que uma pessoa possui e acredito que quanto maior é essa capacidade intelectual maior é o número de suas faculdades que a capacitam para o exercício de diversas atividades – seja artista ou não. O mundo já está tão compartimentado que o melhor é considerar um criador de qualquer área apenas como um criador.

Assim, não há químicos ou biólogos, há cientistas; não há poetas ou novelistas, há escritores e não há escritores e pintores e músicos, mas artistas. E cientistas e artistas são a mesma coisa: criadores.

Um criador não apenas deve, mas tem obrigação de se envolver com o mundo que o rodeia e oferecer sua visão dele independente dessa visão servir ou não pra alguma coisa.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

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01
AGO

 


                                                    BUSCA INSANA

 O IBGE recentemente liberou uma pesquisa que prova que a taxa de separações e divórcios de casais atingiu o maior patamar desde 1995. Mas os casamentos também aumentaram quase 4% em relação ao ano anterior. Não sei o que isso significa, deve ser o direito que todos temos de tentativa e erro em busca da felicidade, esse estado de espírito abstrato e hipotético e que é incentivado por todos os meios de comunicação – é preciso ser feliz imediatamente.

Para isso as receitas são as mais variadas e os modelos de pessoas que supostamente atingiram esse nirvana estão espalhados por toda parte. Mas, por uma estranha ironia, ser feliz está quase sempre associado a ter: dinheiro, bons empregos, status social, beleza, bens como casa própria e carros, nível superior, acesso aos mais elevados e caros produtos, etc....

E tudo isso num País de 200 milhões de pessoas onde a grande maioria navega em tábua fina sobre o mar, desassistida nas suas mais básicas condições de sobrevivência, aquelas capazes de dar alguma dignidade ao ato de viver.

Nada contra procurar ser feliz sendo pobre, muitos conseguem exatamente por isso, não tendo que se dedicar a administrar coisas alheias à vida, mas os orientais afirmam que a felicidade é também produto da comparação. Percebe-se que é feliz quando presta atenção ao mundo e se compara às tragédias que outros vivem. Pode ser.

A doença que nos acomete incentivada pelos meios de comunicação é a tal busca da felicidade a qualquer preço, a insanidade de passar sobre qualquer coisa, pagar qualquer preço pra ter o direito de experimentar os prazeres que dizem que podem nos fazer felizes.

Entre eles o ser bem sucedido, bonito, famoso e coisas afins.

Os que não possuem nenhuma dessas coisas estão por aí nas estatísticas da violência urbana, morando mal, comendo pior ainda, mergulhados no anonimato e cumprindo suas jornadas automáticas de trabalho.                 Os outros, a grande minoria são os que ocupam os espaços nobres das revistas e programas de TVs com suas caras maquiladas, suas jóias, seus carros importados, sempre focados pelas lentes e oferecendo o espetáculo de suas vidas bem sucedidas e suas declarações insossas sobre nada. Esses é que são os modelos da felicidade que nos vendem todos os dias, são eles que venceram na vida e os que podem comprar até a beleza e as mulheres e homens mais charmosos com sua bem-aventurança.

Por conta disso a grande maioria nunca está tranqüila, jamais se sente feliz e coloca a felicidade alguns quilômetros à frente, alvo inatingível, sempre se culpando pela enorme incapacidade de conseguir se igualar aos seus modelos. Estamos doentes.

Ninguém parece contente onde está, ameniza-se a infelicidade com a maneira mais aceita por todos: o disfarce e o fingimento – melhor fingir que está tudo bem já que vivemos num mundo onde nada é, tudo parece ser. Leva-se tão longe o jogo de aparências que alguns acabam acreditando que são na realidade aquilo que fingem ser para sofrer menos o impacto das frustrações e da baixa auto-estima. Os psiquiatras inventaram um termo novo pra definir esse distúrbio: depressão das aparências.

O sujeito passa anos e anos fazendo o que não gosta apenas porque isso lhe dá status e dinheiro que lhe garante segurança. Quando decide ser feliz é tarde demais, está refém daquele ditado que diz que o hábito do cachimbo faz a boca torta.

O casa-descasa, as depressões, o sexo delivery, as máscaras sociais coladas ao rosto, as insônias, as imensas solidões que o uso indiscriminado dos celulares denunciam nos bares e festas, a superficialidade das relações...tudo isso vai delineando um quadro absurdo sobre até onde se pode suportar viver na busca insana de ser feliz.

O que embaralha, às vezes, as cabeças é o fato de que em alguns países nórdicos onde as pessoas conseguem muito facilmente o que desejam como segurança e dinheiro o índice de suicídios é imenso, o que denota uma infelicidade extrema. É como se todas as dificuldades que enfrentamos também servissem para nos impulsionar e nos dar esperanças de um dia conseguir o que almejamos – temos pelo que lutar, enquanto os nórdicos só podem se voltar pra dentro de si mesmos, já que quase tudo está resolvido em suas vidas.

E ao se voltar pra dentro de si mesmos acabam encontrando um enorme vazio e absoluta falta de vida interior.

Se for isto de fato estamos diante de um teorema difícil de resolver.

Até no lazer há certo desconforto diante de alguns programas de TVs , por exemplo, que exibem uma casta de gente especializada em fingir e fingir de tal maneira que passa a imagem de gente feliz, mesmo que viva uma infelicidade doída e tenha os mesmos problemas que todo mundo. Afinal, a ditadura das aparências deve fazer muito mais mal a quem precisa recorrer a elas pra ter a impressão de que são felizes. Na solidão de seus quartos o fardo deve pesar mais, a realidade despenca inexoravelmente sobre suas cabeças porque não deve ser fácil se saber um e se vender outro.                Se vai se sentir verdadeiramente feliz algum dia é uma incógnita, assim como é uma incógnita saber aonde tudo isso vai nos levar a todos e a cada um em particular.

A busca insana da felicidade a qualquer preço certamente não é o caminho.

E é o que a grande maioria parece estar seguindo.

Segundo Riobaldo Tatarana, personagem de João Guimarães Rosa em “Grande Sertão, Veredas”: Viver é simples demais, é ir vivendo – mas quem acredita nisso?

 

 

Marcos Fayad

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29
MAR

 


 Quando se está dentro do avião e ele levanta voo é bom ficar com o nariz colado no vidro da janela observando a lenta subida aos céus. Em poucos minutos o homem, a casa do homem, as ruas do homem, os carros do homem...tudo isso vai se distanciando, ficando pequenininho até que a gente se dá conta de que o bichinho que se acha tão importante não passa mesmo de um pequeno verme circulando lá embaixo. Com poucos metros acima ele fica invisível, coitado, basta subir 5 mil metros e ele perde imediatamente tudo isso que o faz pensar que é imprescindível na rotação do planeta terra.

A verdade é que não contamos nada para o universo: nossas alegrias ou nossas dores não afetam em nada o movimento do mundo no grande espaço cósmico.

Não posso imaginar que haja um momento mais propício que esse para meditar sobre a vida que é quando ela mais parece assumir sua verdadeira dimensão.

Assim, desprovidos da presunção de sermos únicos, grandes, poderosos podemos atinar e encarar uma realidade oposta. O que talvez nos ajude a perceber isso seja também a fragilidade com que nos encontramos dentro daquela geringonça voadora, antinatural, precária – somos obrigados a entregar-nos ao fato de que nenhum controle podemos exercer sobre o vôo e o controle é uma das ferramentas do homem para se sentir seguro num universo absolutamente inseguro, ele imagina estar de plena posse dos comandos e a ferro-e-fogo controla na maior parte do tempo e se reveste de uma autoridade que nunca possuiu.

Controlamos para garantir nosso papel de donos do mundo, mas, felizmente, não conhecemos nem nosso próprio universo particular e quando se perde a possibilidade de controlar é que se cai na real – nosso poder é desmentido pelos fatos, pelas coisas, pelos acontecimentos.

Não exercemos nenhuma ascendência de fato sobre nada.

No entanto, quando perdemos o controle e estamos mais frágeis é que somos mais bonitos. Quando dormimos, por exemplo: uma pessoa que dorme profundamente adquire uma aura de encantamento difícil de definir e aí, sim, fica até impossível imaginar que pode ser também má.

Um assassino tem a mesma placidez quando dorme que um bebê de um ano.

Pertence a outro plano, o da pureza do sono, do inconsciente onírico que pode levá-lo a reinos desconhecidos onde ele poderá ser melhor, não controlar nem seu inconsciente, assumir-se como de fato é.

Homens poderosos são feios, pode observar, são como águias atentas e vigilantes, jamais parecem relaxados e seus sorrisos mais parecem esgares musculares que a representação metafórica de uma felicidade interior. É ela que gera o sorriso.

Mas um sorriso pode ser também produzido conscientemente mexendo alguns músculos como o desenho caricato faz com a figura real: ela pode ser identificada no traço do desenho, mas não capta a alma de quem é caricaturado.

A fragilidade é da sina do homem e tão certa quanto a morte – podemos fingir poder e força, podemos até infundir temor, mas nos sabemos frágeis.

A área cultural, a arte em geral está repleta de homens frágeis, lúdicos, meio meninos, carentes de elogios e que, por isso mesmo, tiveram o privilégio de entrar em contato direto com os deuses da criação, porque eles concedem o privilégio, mas não aceitam competição. Homens que se acreditam poderosos são competitivos, num embate com a força dos deuses perdem sempre e o castigo pela perda nessa luta inglória é a insensibilidade, a visão estreita para as belas coisas do universo, a rigidez de princípios, as tensões, o jeito desajeitado de viver, a insanidade de correr atrás de coisas falsas e a tristeza de pautar suas vidas pela força do hábito que a eles foi imposto.

Gente frágil, criativa, alegre e sem esse desejo de poder como são os artistas é que se aventura nos meandros da vida e descobre ângulos novos que nem de longe podem ser percebidos pelos tristes e poderosos – são aqueles que sinalizam sobre como a vida pode ser divertida, descomplicada quando assumimos nossa pequenez diante dela.

Quando desce do salto alto é que o homem se dá conta de que perante a grandeza do universo só lhe resta fazer reverência ou se harmonizar.

Nem o dinheiro nem o poder político podem conferir-lhe grandeza.

Parafraseio Whitman: “Grande é a vida – é real e mística!

Grande é a morte – certa como a vida!”

E acrescento: grande é o pequeno homem que sabe avaliar sua dimensão diante do grande universo e fica feliz com ela.

Há mais delícias em ser frágil que ser poderoso.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

bomcombate@uol.com.br

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No meio do caos diário de notícias retorno sempre à leitura de Joseph Campbell como alívio e oxigênio. Foi ele que me ensinou que somos mais do que pensamos que somos. Cada homem possui dimensões amplas e diversas de consciência que não estão incluídas nos conceitos que faz de si mesmo. Isto significa que sua vida é muito mais divertida e profunda do que essa vidinha corriqueira que concebeu e vai levando no dia-a-dia.

Em outras palavras, o que cada um de nós vive é só uma fração infinitesimal daquilo que realmente é o que dá vida e alegria, ânimo e profundidade. Arrastados no turbilhão de acontecimentos que estão fora de nós, envolvidos nos pequenos cacoetes sociais, políticos, religiosos vamos nos afastando do que realmente importa. O homem nasceu para ser feliz, desfrutar as maravilhas do mundo, os prazeres do sexo, da arte, do amor, da interação com a natureza, as descobertas intensas da amizade e das idéias pensadas a partir do modo como se posiciona no mundo. Mas acaba desenvolvendo um conceito de perfeição que passa pelo grau de instrução, pelo volume de dinheiro que consegue amealhar ou pelas posições sociais que consegue galgar, sem falar na imensa quantidade de energia que vai despendendo para entender coisas e comportamentos que não lhe diz respeito diretamente. Diante das enormes sujeiras políticas, dos crimes brutais, das catástrofes naturais o mundo vai nos parecendo um lugar desagradável e complicado, irreversivelmente mau e impossível de nele se viver feliz. Mentiras. Mentiras que nunca questionamos, enredados nas teias das notícias diárias que se renovam a cada manhã, mas que são sempre as mesmas e nos distanciam a cada dia do que realmente conta, repito.

Enquanto atendia num consultório de psicologia durante anos pude conhecer homens e mulheres que, mesmo depois dos 60 anos nunca tinham tido contato direto e verdadeiro consigo mesmos, mergulhados em problemas alheios, preocupados em cumprir os rituais diários do trabalho, relações humanas, criação de filhos, metas a serem atingidas e se acostumaram com a caricatura da vida, para sempre infelizes. Nada está isento de dificuldades, viver é doloroso, como ensinam os budistas, mas é também uma festa cheia de alegrias, aquelas alegrias naturais contidas na criação e que as crianças conhecem e praticam tão bem. Ser feliz deve ser isso: nunca se perder da sua criança, mesmo que tudo ao redor conspire para que você se torne o adulto medroso, angustiado e chato em que vai se transmudando ao longo dos anos.

Dores e preocupações são meras partes integrantes da existência e, com certeza, não a sua parte mais importante. São também os budistas que ensinam que alegria é capaz de curar ou, no mínimo, fazer com que a vida seja uma rápida experiência recheada de pequenos prazeres diários que, no todo, dão significados e sentidos transcendentais a essa aventura tão curta.

Nós é que temos de torná-la intensa e gostosa, dizer sim à vida como ela é sem querer impor as condições e regras do que é ser feliz.

A felicidade não é um estágio futuro que haveremos de atingir, se ela é alguma coisa há de ser o que vivemos aqui e agora.

Os problemas estão lá fora, fora de nós na maioria das vezes, não vão desaparecer magicamente e o ideal é mudar nossa maneira de vê-los, não desconsiderá-los, mas considerar maior o que sentimos e o que é desfrutável para todos e está disponível no mundo. Cada pessoa está sempre fazendo alguma coisa que lhe é exigida e nunca se exige que uma pessoa seja ela mesma, exigem-se máscaras diárias para serem consideradas pessoas adequadas e normais. Mesmo se o que se considera normal seja apenas a compulsão para observar com morbidez e inveja a vida alheia, como qualquer telespectador de novelas. A vida, a boa vida de que falo não está necessariamente associada à resolução dos problemas políticos, a diminuição dos índices de desemprego, diminuição dos crimes, a capacidade maior ou menor para se ganhar dinheiro, ao volume dos bens que se consegue juntar, ao consumismo desvairado incentivado pela propaganda, ao número de pessoas que se leva pra cama, as honrarias eventuais, aos cargos altos ou médios, etc...

Viver bem deve ser associado à capacidade que cada um tem de buscar sua bem-aventurança de ter sido mais um privilegiado ao nascer num mundo que oferece tudo o que um homem precisa para ser feliz.

O negócio é participar ativamente do maravilhoso espetáculo.

Se bem que, de vez em quando, dói um pouco.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

 

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É BONITO SER FEIO

 

 

Uma única frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht lida há alguns anos me colocou no rumo certo para a minha vida. Ele dizia que quanto mais o mundo fosse se tornando caótico e superficial mais e mais a arte imporia sua importância na vida das pessoas e as tornariam melhores. Parecia um contrassenso, mas não era, hoje eu sei. Ele também intuía que a mediocridade se multiplicaria e chegaria a escalas impensáveis. Acertou nas duas coisas. Quem faz e aprecia a arte verdadeira é cada vez mais uma minoria, aquela parcela de gente capaz de se manter acima da burrice generalizada e atroz em que o mundo mergulhou nos últimos anos.

A grande maioria só aumenta e com ela seus jogos de esconder o que realmente são, sua solidão que já se transformou em doença, seu isolamento de tudo o que se pode chamar de vida. E o pior: não lamenta o estado deplorável a que chegou porque não conhece o outro lado nem sabe avaliar o que deixa de viver e sentir. Medíocres ouvem péssima música e gostam, leem sub literatura e a vomitam nos seus encontros, fazem sexo de péssima qualidade e o alardeiam nos bares, veem arte miúda e a aplaudem de pé.

Até na política os medíocres vencem, elegeram por duas vezes um homem que alardeia sua ignorância, apregoa sua falta de cultura e sente orgulho de dizer que seus pais não sabiam fazer um ó com o copo – tenta nos convencer que é bonito ser feio.

Seus seguidores são milhões de pessoas afins, isto é, os que compartilham suas idéias e ignoram o que a arte e a cultura podem fazer para engrandecer o mundo e melhorar as pessoas como afirmou Brecht. E como ele há muitos outros pequenos homens cheios de seguidores cegos. Que pena!

Pode ser que nunca tenham tido alguém que lhes apontasse um caminho a seguir afora o que seguiram afinal, todos precisamos de um orientador desde que nascemos. Um homem disposto a escapar da horda de bobagens que assola o mundo deveria ter a chance de saber certas coisas.

Saber, por exemplo, que qualquer aforismo do Nietzsche vale mais que todos os discursos idiotas proferidos pelos políticos em qualquer tempo; que três páginas da literatura de Victor Hugo são mais importantes que toda a dramaturgia pífia escrita para alimentar os vários meses das telenovelas e mais inteligentes que todas as pequenas idéias que magnetizam os telespectadores delas; uma sinfonia do Mahler, ouvida à luz de velas é capaz de sanear o espírito e pode curar feridas emocionais; um pequeno desabafo de Antonin Artaud, o louco, pode dar mais consciência que todas as conversas superficiais que um homem medíocre mantém com seus pares; um soluço vocal da grande cantora mexicana Chavela Vargas supera em emoção e verdade todos os sentimentalismos baratos; que qualquer trecho escrito pelo nosso Guimarães Rosa contém mais daquela verdade profunda que sai da boca de um homem simples do que as milhares de páginas escritas por intelectuais metidos a cultos; um cante jondo admirado por Garcia Lorca traz em si mais espiritualismo e religiosidade que todas as religiões juntas; que até o tesão sutil de um poema de Walt Whitman vale mais que todas as bundas e peitos siliconados expostos nas revistas de classe média para o êxtase sexual dos medíocres. E o espaço não dá nem pra tocar em Mozart e outros gênios com poder de nos tirar do rame-rame diário. No entanto, para reconfirmar o que o Brecht disse, pouquíssimos leem Victor Hugo, acham Mahler chatíssimo, desprezam as loucuras de Nietzcshe e Artaud, ignoram Guimarães Rosa, nem sabem quem é Chavela Vargas, apenas ouviram falar em Garcia Lorca...mas acreditam no Código Da Vinci, entram em delírio dançante ao som de Joelma e Chimbinho, vibram de tesão pela garota da capa, discutem a sério os discursos dos políticos, choram de emoção com qualquer dupla sertaneja, tentam desvendar os mistérios da vida alheia através das novelas, desperdiçam a vida sem consciência, dó nem piedade de si mesmos.

O instante que passa, passa definitivamente, nada do que não se viveu volta para que se possa vivê-lo outra vez. Não há segunda chance, o que há, o que ainda dá tempo é o leitor escolher entre uma coisa e outra sabendo que nunca mais recuperará o que já perdeu ou deixou de viver.

Afinal, alguém já ensinou que se você avançar um único passo a cada cem anos, mesmo assim já estará a caminho. Vale a pena.

Melhor que pertencer às fileiras da mediocridade.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

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12
JUL

 


                                                              CERTAS COISAS

 

Pois é, eu sei que às vezes dá um desânimo encarar as coisas ruins que se vão percebendo ao longo dos anos: o mau caráter das pessoas que nos cercam, as falsidades disfarçadas de amplos sorrisos, as traições afetivas, a violência contra crianças e adultos, todas as dificuldades pra ganhar honestamente dinheiro suficiente pra viver quando vemos os desonestos e os inúteis encherem seus cofres com o que roubam do povo. Além de tudo pesquisas apontam a solidão como o segundo mal do século mesmo quando se está cercado de gente e que o primeiro mal, a depressão, é páreo duro pra solidão e ambas são irmãs.

Também sei claro que sei que é preciso lutar e se indignar sempre contra todas essas coisas.

Mas, convenhamos, apesar de tanto branco-e-preto o mundo não tem só disso, há tantas outras coisas fantásticas que superam todos os males quando a gente as busca, procura olhar pra elas e aprende a apreciá-las – são capazes de neutralizar doenças do corpo e da alma promovidas por certo modo de viver e algumas, afirmam as ciências, são capazes de curar seja o que for. E mais: praticamente todas as boas coisas que possuem esse poder de encantar e de curar são de graça, estão no mundo apenas pra serem desfrutadas por quem quer e sabe descobri-las ou interagir com elas. Por exemplo: fica-se melhor quando se ouve a música do Mozart, qualquer uma delas é capaz de transformar o ambiente em torno; ou as belas canções andaluzas do século XVI que se pode encontrar em qualquer programa de música da net e que nos transportam pra mundos onde a beleza predominava; ou se comover com o piano do velho cubano Bebo Valdés, principalmente se ele se fizer acompanhar do cantor espanhol Diego El Cigala; se quiser ainda mais ouça aquele que é considerado o disco mais perfeito gravado em toda a história da música mundial: Kind of Blue do Miles Davis; ouvir tudo isso saboreando os chocolates havannet que um amigo pode trazer de presente da Argentina ou se comprar numa importadora; abrir e ler três páginas, apenas três, de qualquer poema do Walt Whitman e sair delas engrandecido como humano; passar algumas horas vendo boas reproduções da pintura de Picasso ou de Van Gogh ou de Fernando Botero ou de Francis Bacon e retirar os olhos delas mais sensível e inteligente; comer três pimentas malaguetinhas que se compram em qualquer feira porque elas fazem um bem danado ao coração e ao paladar, portanto, à alma; presentear ainda mais o paladar com pão quentinho sem miolo e muita manteiga com café da hora; reler dez vezes o Don Quijote de La Mancha do Cervantes com uma caneta do lado pra anotar tudo que ele vai provocando na sua cabeça; andar descalço por uma trilha conhecida numa fazenda qualquer pra permitir que seus pés despertem a energia kundalini que ativa e faz o homem gozar os prazeres e o harmoniza com o mundo; por uma venda nos olhos e tomar sorvete com licor Lacrima Christi pra saber como era o sabor experimentado pelos deuses; ter coragem de libertar seu grito primal e urrar quando gozar os prazeres do sexo no momento do clímax, ficar fora de si – quando o homem é mais si mesmo é quando está fora de si e isso se chama ex-ctase=estar fora; gastar alguns minutos do seu dia pra olhar fotos de paisagens do mundo, de qualquer lugar só pra se lembrar que onde você vive não é o mundo, há mais para além; provocar em si mesmo desejos de ser maior, mais amplo, mas bonito, mais sensível, mais tesudo, mais engraçado – mesmo que não tenha vontade forçar os músculos da face pra que abram um sorriso a cada meia hora porque sorrir é de graça e só o homem pode – sorrir prolonga a vida, dizem os cientistas.

Vida longa pra quem descobre as cores do mundo significa vida eterna e pode apostar que é disso que falavam todos os deuses do Olimpo.

Se o inferno for preto-e-branco como garante o Dante na Divina Comédia será porque não tem nada disso acima.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

bomcombate@uol.com.br

www.ciateatralmartimcerere.com.br


Lisbon Revisited
(l923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me aborreçam, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão pro diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho pro diabo!
Pra que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que chatice  quererem que eu seja de algum grupo!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais,  nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio  quero estar sozinho!

E não me peguem no braço!

Não gosto que  me peguem no braço. Quero e gosto de ser sozinho!

PESSOA, Fernando: Poemas de Álvaro de Campos

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