12
JUL

 


                                                              CERTAS COISAS

 

Pois é, eu sei que às vezes dá um desânimo encarar as coisas ruins que se vão percebendo ao longo dos anos: o mau caráter das pessoas que nos cercam, as falsidades disfarçadas de amplos sorrisos, as traições afetivas, a violência contra crianças e adultos, todas as dificuldades pra ganhar honestamente dinheiro suficiente pra viver quando vemos os desonestos e os inúteis encherem seus cofres com o que roubam do povo. Além de tudo pesquisas apontam a solidão como o segundo mal do século mesmo quando se está cercado de gente e que o primeiro mal, a depressão, é páreo duro pra solidão e ambas são irmãs.

Também sei claro que sei que é preciso lutar e se indignar sempre contra todas essas coisas.

Mas, convenhamos, apesar de tanto branco-e-preto o mundo não tem só disso, há tantas outras coisas fantásticas que superam todos os males quando a gente as busca, procura olhar pra elas e aprende a apreciá-las – são capazes de neutralizar doenças do corpo e da alma promovidas por certo modo de viver e algumas, afirmam as ciências, são capazes de curar seja o que for. E mais: praticamente todas as boas coisas que possuem esse poder de encantar e de curar são de graça, estão no mundo apenas pra serem desfrutadas por quem quer e sabe descobri-las ou interagir com elas. Por exemplo: fica-se melhor quando se ouve a música do Mozart, qualquer uma delas é capaz de transformar o ambiente em torno; ou as belas canções andaluzas do século XVI que se pode encontrar em qualquer programa de música da net e que nos transportam pra mundos onde a beleza predominava; ou se comover com o piano do velho cubano Bebo Valdés, principalmente se ele se fizer acompanhar do cantor espanhol Diego El Cigala; se quiser ainda mais ouça aquele que é considerado o disco mais perfeito gravado em toda a história da música mundial: Kind of Blue do Miles Davis; ouvir tudo isso saboreando os chocolates havannet que um amigo pode trazer de presente da Argentina ou se comprar numa importadora; abrir e ler três páginas, apenas três, de qualquer poema do Walt Whitman e sair delas engrandecido como humano; passar algumas horas vendo boas reproduções da pintura de Picasso ou de Van Gogh ou de Fernando Botero ou de Francis Bacon e retirar os olhos delas mais sensível e inteligente; comer três pimentas malaguetinhas que se compram em qualquer feira porque elas fazem um bem danado ao coração e ao paladar, portanto, à alma; presentear ainda mais o paladar com pão quentinho sem miolo e muita manteiga com café da hora; reler dez vezes o Don Quijote de La Mancha do Cervantes com uma caneta do lado pra anotar tudo que ele vai provocando na sua cabeça; andar descalço por uma trilha conhecida numa fazenda qualquer pra permitir que seus pés despertem a energia kundalini que ativa e faz o homem gozar os prazeres e o harmoniza com o mundo; por uma venda nos olhos e tomar sorvete com licor Lacrima Christi pra saber como era o sabor experimentado pelos deuses; ter coragem de libertar seu grito primal e urrar quando gozar os prazeres do sexo no momento do clímax, ficar fora de si – quando o homem é mais si mesmo é quando está fora de si e isso se chama ex-ctase=estar fora; gastar alguns minutos do seu dia pra olhar fotos de paisagens do mundo, de qualquer lugar só pra se lembrar que onde você vive não é o mundo, há mais para além; provocar em si mesmo desejos de ser maior, mais amplo, mas bonito, mais sensível, mais tesudo, mais engraçado – mesmo que não tenha vontade forçar os músculos da face pra que abram um sorriso a cada meia hora porque sorrir é de graça e só o homem pode – sorrir prolonga a vida, dizem os cientistas.

Vida longa pra quem descobre as cores do mundo significa vida eterna e pode apostar que é disso que falavam todos os deuses do Olimpo.

Se o inferno for preto-e-branco como garante o Dante na Divina Comédia será porque não tem nada disso acima.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

bomcombate@uol.com.br

www.ciateatralmartimcerere.com.br

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