No meio do caos diário de notícias retorno sempre à leitura de Joseph Campbell como alívio e oxigênio. Foi ele que me ensinou que somos mais do que pensamos que somos. Cada homem possui dimensões amplas e diversas de consciência que não estão incluídas nos conceitos que faz de si mesmo. Isto significa que sua vida é muito mais divertida e profunda do que essa vidinha corriqueira que concebeu e vai levando no dia-a-dia.

Em outras palavras, o que cada um de nós vive é só uma fração infinitesimal daquilo que realmente é o que dá vida e alegria, ânimo e profundidade. Arrastados no turbilhão de acontecimentos que estão fora de nós, envolvidos nos pequenos cacoetes sociais, políticos, religiosos vamos nos afastando do que realmente importa. O homem nasceu para ser feliz, desfrutar as maravilhas do mundo, os prazeres do sexo, da arte, do amor, da interação com a natureza, as descobertas intensas da amizade e das idéias pensadas a partir do modo como se posiciona no mundo. Mas acaba desenvolvendo um conceito de perfeição que passa pelo grau de instrução, pelo volume de dinheiro que consegue amealhar ou pelas posições sociais que consegue galgar, sem falar na imensa quantidade de energia que vai despendendo para entender coisas e comportamentos que não lhe diz respeito diretamente. Diante das enormes sujeiras políticas, dos crimes brutais, das catástrofes naturais o mundo vai nos parecendo um lugar desagradável e complicado, irreversivelmente mau e impossível de nele se viver feliz. Mentiras. Mentiras que nunca questionamos, enredados nas teias das notícias diárias que se renovam a cada manhã, mas que são sempre as mesmas e nos distanciam a cada dia do que realmente conta, repito.

Enquanto atendia num consultório de psicologia durante anos pude conhecer homens e mulheres que, mesmo depois dos 60 anos nunca tinham tido contato direto e verdadeiro consigo mesmos, mergulhados em problemas alheios, preocupados em cumprir os rituais diários do trabalho, relações humanas, criação de filhos, metas a serem atingidas e se acostumaram com a caricatura da vida, para sempre infelizes. Nada está isento de dificuldades, viver é doloroso, como ensinam os budistas, mas é também uma festa cheia de alegrias, aquelas alegrias naturais contidas na criação e que as crianças conhecem e praticam tão bem. Ser feliz deve ser isso: nunca se perder da sua criança, mesmo que tudo ao redor conspire para que você se torne o adulto medroso, angustiado e chato em que vai se transmudando ao longo dos anos.

Dores e preocupações são meras partes integrantes da existência e, com certeza, não a sua parte mais importante. São também os budistas que ensinam que alegria é capaz de curar ou, no mínimo, fazer com que a vida seja uma rápida experiência recheada de pequenos prazeres diários que, no todo, dão significados e sentidos transcendentais a essa aventura tão curta.

Nós é que temos de torná-la intensa e gostosa, dizer sim à vida como ela é sem querer impor as condições e regras do que é ser feliz.

A felicidade não é um estágio futuro que haveremos de atingir, se ela é alguma coisa há de ser o que vivemos aqui e agora.

Os problemas estão lá fora, fora de nós na maioria das vezes, não vão desaparecer magicamente e o ideal é mudar nossa maneira de vê-los, não desconsiderá-los, mas considerar maior o que sentimos e o que é desfrutável para todos e está disponível no mundo. Cada pessoa está sempre fazendo alguma coisa que lhe é exigida e nunca se exige que uma pessoa seja ela mesma, exigem-se máscaras diárias para serem consideradas pessoas adequadas e normais. Mesmo se o que se considera normal seja apenas a compulsão para observar com morbidez e inveja a vida alheia, como qualquer telespectador de novelas. A vida, a boa vida de que falo não está necessariamente associada à resolução dos problemas políticos, a diminuição dos índices de desemprego, diminuição dos crimes, a capacidade maior ou menor para se ganhar dinheiro, ao volume dos bens que se consegue juntar, ao consumismo desvairado incentivado pela propaganda, ao número de pessoas que se leva pra cama, as honrarias eventuais, aos cargos altos ou médios, etc...

Viver bem deve ser associado à capacidade que cada um tem de buscar sua bem-aventurança de ter sido mais um privilegiado ao nascer num mundo que oferece tudo o que um homem precisa para ser feliz.

O negócio é participar ativamente do maravilhoso espetáculo.

Se bem que, de vez em quando, dói um pouco.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

 

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