29
MAR

 


 Quando se está dentro do avião e ele levanta voo é bom ficar com o nariz colado no vidro da janela observando a lenta subida aos céus. Em poucos minutos o homem, a casa do homem, as ruas do homem, os carros do homem...tudo isso vai se distanciando, ficando pequenininho até que a gente se dá conta de que o bichinho que se acha tão importante não passa mesmo de um pequeno verme circulando lá embaixo. Com poucos metros acima ele fica invisível, coitado, basta subir 5 mil metros e ele perde imediatamente tudo isso que o faz pensar que é imprescindível na rotação do planeta terra.

A verdade é que não contamos nada para o universo: nossas alegrias ou nossas dores não afetam em nada o movimento do mundo no grande espaço cósmico.

Não posso imaginar que haja um momento mais propício que esse para meditar sobre a vida que é quando ela mais parece assumir sua verdadeira dimensão.

Assim, desprovidos da presunção de sermos únicos, grandes, poderosos podemos atinar e encarar uma realidade oposta. O que talvez nos ajude a perceber isso seja também a fragilidade com que nos encontramos dentro daquela geringonça voadora, antinatural, precária – somos obrigados a entregar-nos ao fato de que nenhum controle podemos exercer sobre o vôo e o controle é uma das ferramentas do homem para se sentir seguro num universo absolutamente inseguro, ele imagina estar de plena posse dos comandos e a ferro-e-fogo controla na maior parte do tempo e se reveste de uma autoridade que nunca possuiu.

Controlamos para garantir nosso papel de donos do mundo, mas, felizmente, não conhecemos nem nosso próprio universo particular e quando se perde a possibilidade de controlar é que se cai na real – nosso poder é desmentido pelos fatos, pelas coisas, pelos acontecimentos.

Não exercemos nenhuma ascendência de fato sobre nada.

No entanto, quando perdemos o controle e estamos mais frágeis é que somos mais bonitos. Quando dormimos, por exemplo: uma pessoa que dorme profundamente adquire uma aura de encantamento difícil de definir e aí, sim, fica até impossível imaginar que pode ser também má.

Um assassino tem a mesma placidez quando dorme que um bebê de um ano.

Pertence a outro plano, o da pureza do sono, do inconsciente onírico que pode levá-lo a reinos desconhecidos onde ele poderá ser melhor, não controlar nem seu inconsciente, assumir-se como de fato é.

Homens poderosos são feios, pode observar, são como águias atentas e vigilantes, jamais parecem relaxados e seus sorrisos mais parecem esgares musculares que a representação metafórica de uma felicidade interior. É ela que gera o sorriso.

Mas um sorriso pode ser também produzido conscientemente mexendo alguns músculos como o desenho caricato faz com a figura real: ela pode ser identificada no traço do desenho, mas não capta a alma de quem é caricaturado.

A fragilidade é da sina do homem e tão certa quanto a morte – podemos fingir poder e força, podemos até infundir temor, mas nos sabemos frágeis.

A área cultural, a arte em geral está repleta de homens frágeis, lúdicos, meio meninos, carentes de elogios e que, por isso mesmo, tiveram o privilégio de entrar em contato direto com os deuses da criação, porque eles concedem o privilégio, mas não aceitam competição. Homens que se acreditam poderosos são competitivos, num embate com a força dos deuses perdem sempre e o castigo pela perda nessa luta inglória é a insensibilidade, a visão estreita para as belas coisas do universo, a rigidez de princípios, as tensões, o jeito desajeitado de viver, a insanidade de correr atrás de coisas falsas e a tristeza de pautar suas vidas pela força do hábito que a eles foi imposto.

Gente frágil, criativa, alegre e sem esse desejo de poder como são os artistas é que se aventura nos meandros da vida e descobre ângulos novos que nem de longe podem ser percebidos pelos tristes e poderosos – são aqueles que sinalizam sobre como a vida pode ser divertida, descomplicada quando assumimos nossa pequenez diante dela.

Quando desce do salto alto é que o homem se dá conta de que perante a grandeza do universo só lhe resta fazer reverência ou se harmonizar.

Nem o dinheiro nem o poder político podem conferir-lhe grandeza.

Parafraseio Whitman: “Grande é a vida – é real e mística!

Grande é a morte – certa como a vida!”

E acrescento: grande é o pequeno homem que sabe avaliar sua dimensão diante do grande universo e fica feliz com ela.

Há mais delícias em ser frágil que ser poderoso.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

bomcombate@uol.com.br

www.ciateatralmartimcerere.com.br

 

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