01
AGO

 


                                                    BUSCA INSANA

 O IBGE recentemente liberou uma pesquisa que prova que a taxa de separações e divórcios de casais atingiu o maior patamar desde 1995. Mas os casamentos também aumentaram quase 4% em relação ao ano anterior. Não sei o que isso significa, deve ser o direito que todos temos de tentativa e erro em busca da felicidade, esse estado de espírito abstrato e hipotético e que é incentivado por todos os meios de comunicação – é preciso ser feliz imediatamente.

Para isso as receitas são as mais variadas e os modelos de pessoas que supostamente atingiram esse nirvana estão espalhados por toda parte. Mas, por uma estranha ironia, ser feliz está quase sempre associado a ter: dinheiro, bons empregos, status social, beleza, bens como casa própria e carros, nível superior, acesso aos mais elevados e caros produtos, etc....

E tudo isso num País de 200 milhões de pessoas onde a grande maioria navega em tábua fina sobre o mar, desassistida nas suas mais básicas condições de sobrevivência, aquelas capazes de dar alguma dignidade ao ato de viver.

Nada contra procurar ser feliz sendo pobre, muitos conseguem exatamente por isso, não tendo que se dedicar a administrar coisas alheias à vida, mas os orientais afirmam que a felicidade é também produto da comparação. Percebe-se que é feliz quando presta atenção ao mundo e se compara às tragédias que outros vivem. Pode ser.

A doença que nos acomete incentivada pelos meios de comunicação é a tal busca da felicidade a qualquer preço, a insanidade de passar sobre qualquer coisa, pagar qualquer preço pra ter o direito de experimentar os prazeres que dizem que podem nos fazer felizes.

Entre eles o ser bem sucedido, bonito, famoso e coisas afins.

Os que não possuem nenhuma dessas coisas estão por aí nas estatísticas da violência urbana, morando mal, comendo pior ainda, mergulhados no anonimato e cumprindo suas jornadas automáticas de trabalho.                 Os outros, a grande minoria são os que ocupam os espaços nobres das revistas e programas de TVs com suas caras maquiladas, suas jóias, seus carros importados, sempre focados pelas lentes e oferecendo o espetáculo de suas vidas bem sucedidas e suas declarações insossas sobre nada. Esses é que são os modelos da felicidade que nos vendem todos os dias, são eles que venceram na vida e os que podem comprar até a beleza e as mulheres e homens mais charmosos com sua bem-aventurança.

Por conta disso a grande maioria nunca está tranqüila, jamais se sente feliz e coloca a felicidade alguns quilômetros à frente, alvo inatingível, sempre se culpando pela enorme incapacidade de conseguir se igualar aos seus modelos. Estamos doentes.

Ninguém parece contente onde está, ameniza-se a infelicidade com a maneira mais aceita por todos: o disfarce e o fingimento – melhor fingir que está tudo bem já que vivemos num mundo onde nada é, tudo parece ser. Leva-se tão longe o jogo de aparências que alguns acabam acreditando que são na realidade aquilo que fingem ser para sofrer menos o impacto das frustrações e da baixa auto-estima. Os psiquiatras inventaram um termo novo pra definir esse distúrbio: depressão das aparências.

O sujeito passa anos e anos fazendo o que não gosta apenas porque isso lhe dá status e dinheiro que lhe garante segurança. Quando decide ser feliz é tarde demais, está refém daquele ditado que diz que o hábito do cachimbo faz a boca torta.

O casa-descasa, as depressões, o sexo delivery, as máscaras sociais coladas ao rosto, as insônias, as imensas solidões que o uso indiscriminado dos celulares denunciam nos bares e festas, a superficialidade das relações...tudo isso vai delineando um quadro absurdo sobre até onde se pode suportar viver na busca insana de ser feliz.

O que embaralha, às vezes, as cabeças é o fato de que em alguns países nórdicos onde as pessoas conseguem muito facilmente o que desejam como segurança e dinheiro o índice de suicídios é imenso, o que denota uma infelicidade extrema. É como se todas as dificuldades que enfrentamos também servissem para nos impulsionar e nos dar esperanças de um dia conseguir o que almejamos – temos pelo que lutar, enquanto os nórdicos só podem se voltar pra dentro de si mesmos, já que quase tudo está resolvido em suas vidas.

E ao se voltar pra dentro de si mesmos acabam encontrando um enorme vazio e absoluta falta de vida interior.

Se for isto de fato estamos diante de um teorema difícil de resolver.

Até no lazer há certo desconforto diante de alguns programas de TVs , por exemplo, que exibem uma casta de gente especializada em fingir e fingir de tal maneira que passa a imagem de gente feliz, mesmo que viva uma infelicidade doída e tenha os mesmos problemas que todo mundo. Afinal, a ditadura das aparências deve fazer muito mais mal a quem precisa recorrer a elas pra ter a impressão de que são felizes. Na solidão de seus quartos o fardo deve pesar mais, a realidade despenca inexoravelmente sobre suas cabeças porque não deve ser fácil se saber um e se vender outro.                Se vai se sentir verdadeiramente feliz algum dia é uma incógnita, assim como é uma incógnita saber aonde tudo isso vai nos levar a todos e a cada um em particular.

A busca insana da felicidade a qualquer preço certamente não é o caminho.

E é o que a grande maioria parece estar seguindo.

Segundo Riobaldo Tatarana, personagem de João Guimarães Rosa em “Grande Sertão, Veredas”: Viver é simples demais, é ir vivendo – mas quem acredita nisso?

 

 

Marcos Fayad

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